subserviente´ ruim
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o valor solitário do que não é visto; tampouco lembrado


Teve um dia, há uns quatro meses atrás, cinco ou seis. Talvez. Eu não me lembro bem. Conversando com a Alice, a gente orbitou quase toda a genealogia dos artistas que nos inspiramos e que já pisaram na Terra. Paramos em dois ou três. Um deles era Van Gogh. Era pra refletir o porquê apesar de tantas circunstâncias alguns artistas continuaram fazendo arte, mesmo quando parecia que eles estavam só lutando contra uma força invencível irremediável e que os engoliria a qualquer instante. Simplificando os termos, qualquer pessoa diria que a resposta é simples. “Amor e não-sei-o-quê né?”

Quando se faz arte há muito tempo, fica cada vez mais difícil acreditar nessa magia. Em predestinação. Em genialidade. Se as coisas são justas ou não; existem milhares e milhares de razões, explicações, sentidos, etc. etc. Questão financeira. Mercado. Público. Quando se faz arte há muito tempo, você inevitavelmente descobre todas as respostas e explicações ao ponto de nenhuma delas importar tanto também. Porque meio que não há nada a ser feito quanto a isso. E, quando há, não muda muita coisa. Isso volta praquela questão da resposta ser mesmo tão simples assim.

Quando se faz arte há muito tempo, o tempo redobra, e a distância do mundo pro artista fica cada vez maior. Se você é artista vindo do interior, pobre e sem contato nenhum ou sei lá o quê, você meio que se vê em um caminho solitário inevitável. No meio desse caminho, são construídas certezas e abandonadas outras. Uma delas é de que você não precisa do que achava que precisava pra fazer as coisas, por mais simplista que isso pareça. Outra é que continuar fazendo as coisas ano após ano, leva a algum lugar, por mais abstrato que isso pareça. Esse lugar constrói uma certeza e isso explica minimamente o porquê artistas continuam fazendo as coisas mesmo quando, externamente, parece não ter muito retorno. Isso me lembra sempre Van Gogh ou Basquiat. Isso me lembra também artistas que estão perto de mim.

Uma das outras certezas (essa mais minha do que de qualquer outro alguém) é a de que, às vezes, a sua realidade se parece com outras realidades. De décadas. Centenas. Milhares de anos atrás. É um pouco difícil não se sentir, de algum modo, especial. Quando se para para pensar a respeito. Como se tudo fosse parte de algum grande retorno que se repete com novas formas, novas pessoas, novos destinos. Mas que, no fundo, tudo é parecido. Mesmo que não signifique tanta coisa no fim. Porque nós, seres humanos, somos acostumados com a grande quantidade de validação. E não é nem que é mais fácil enxergar o valor das coisas quando tem um monte de gente pensando igual e dizendo a mesma coisa. É que é mais difícil sustentar o valor solitário que você dá, quando ninguém mais vai fazer isso.

Dentro disso, eu vejo: pessoas à minha volta fazendo coisas incríveis. Poderia ser em um outro tempo. E se elas tivessem dinheiro, contatos, sei lá o quê (???); será que as pessoas iriam chamá-las de geniais? Não importa. Não porque não deveria importar, mas porque as coisas extraordinárias feitas continuam sendo extraordinárias. Mesmo que ninguém veja ou dê o devido valor. Como eu disse, difícil é sustentar por tanto tempo o valor solitário das coisas. Às vezes, nem o próprio artista acredita mais em si. E as coisas são tristes assim mesmo.

Mas acreditar em alguma coisa faz toda a diferença. Mesmo que seja intermitente. Mesmo que seja por uma última vez. Essa é a fé que os artistas mais solitários cultivam em segredo. Continuar insistindo vai levar a algum lugar que ninguém sabe onde fica. Que ninguém sabe o que significa. Mas essa é uma certeza que os artistas mais solitários sabem que existe.

Quando você vive cercada de pessoas que fazem arte, é normal você se acostumar com as coisas que são feitas a todo momento. É normal a gente não pensar muito sobre como essas coisas estão sendo feitas, porque, afinal, a gente vive isso todo santo dia, é muito óbvio e natural. As coisas só são feitas. Quando a gente ouve um disco novo de um amigo, a gente quer sempre incentivar e vai dizer: “Parabéns pelo seu disco”. Mas quase nunca a gente vai parar pra pensar em como talvez isso não seja algo tão normal assim. Como aquela pessoa pode ter simplesmente feito uma obra-prima. Ou carregue consigo um talento muito único que você nunca viu em lugar nenhum. Mesmo que não seja tão grande assim. Mesmo que isso já tenha sido visto em algum outro momento da história. Vai ser o quê? Vinte, trinta, quarenta anos atrás? Mesmo que seja parecido agora, vai ser outra forma, outro jeito, feito por outro alguém. Mas se isso é tão comum assim, por que você não vê em todo lugar, a todo momento?

Ter visto de perto o processo de “Ruim” me fez parar pra pensar em como essas coisas muitas vezes são normalizadas. Mas que, quando você coloca em perspectiva, você vai ver que admira tanto uma pessoa que é sua amiga quanto aquela outra lá que é famosa e todo mundo reconhece como genial. É onde tudo volta numa espécie de rotatória pra depois seguir em frente. É o que explica sua tristeza quando você vê que aquela pessoa poderia estar ganhando muito dinheiro ou sendo famosa porque ela tem um talento que verdadeiramente só existe nela. É o que te faz sentir especial discretamente porque você está vivendo na mesma época dela pra apreciar tudo isso.

Você se lembra de tempos em tempos da genialidade de alguém que está tão perto. E de que não importa muito no fim. O que é extraordinário e foi feito continuará sendo extraordinário. Continuará tendo seu valor solitário sustentado por alguém. Guardado às sete chaves no interior. Com o mundo lá fora reconhecendo ou não.

subserviente´ ruim


a Alice me intimou a fazer um tipo de review pro disco dela há muito tempo, que fosse menos esquisita e falasse mais do álbum. Eu estive tentando Alice...

Eu estou aqui, tentando:

para mim é sempre muito dificil falar de arte e não falar de outra coisa junto. questão sociopolítica; financeira; espírito do tempo; é mais difícil ainda quando você consegue encontrar sentido no que pensa e percebe que uma determinada obra está arraigada a todas essas questões que podem parecer desnecessárias quando você pensava que poderia só falar de arte. no caso de "Ruim" é mais difícil ainda pra mim; porque acaba que a preciosidade da obra; a grandeza; a beleza; estão profundamente assentados no fato de que sempre tem uma outra coisa junto. esse é um daqueles discos que é mais bonito porque ninguém conhece. porque talvez se passem dez anos e ninguém continuará não conhecendo. o que parece triste e de fato é. mas de uma forma esquisita incompreensível, se parece bonito. eu, constantemente penso se existe algum tipo de habilidade límbica em se enxergar beleza onde ninguém vai. provavelmente não existe habilidade nenhuma e dentro disso, eu ainda tentarei aqui apontar para alguma direção.

o brasil é um país imenso. o brasil é um país de cultura imensa. dentro da cultura conhecida, existe a cultura profunda. aquela que ninguém vê. nem todo mundo sente ou abstrai. elas são populares mas elas podem ser esquisitinhas diferentes e 'inacessíveis'. só na superfície. tem coisa que de um jeito fácil até, se tornaria muito, mas muito popular. só precisaria de uma outra coisa junto (quem sabe sabe´). aí vai lá. o brasil é um país imenso e dentro dele tem o moderno que já passou; e o contemporâneo que está passando. tem as novas obras, novos jeitos, novos movimentos. dentro disso tem Ruim de Subserviente.

um disco brasileiro. feito de música brasileira. e por mais óbvia que possa parecer essa conexão, eu raramente vejo ela nas novas obras, novos jeitos, novos movimentos. essa é provavelmente a única tecla que eu venho batendo ano após ano quando eu faço críticas silenciosas para mim mesma sobre as obras feitas aqui e que eu vejo; ouço; abstraio. é algo que eu raramente falo. mas essa é uma das coisas que mais me emociona: coisas brasileiras feitas para a cultura brasileira. de maneira óbvia ou não. Ruim faz-se em alicerce de sua própria terra, construindo suas estruturas de ritmo pelo provável mais conhecido ritmo brasileiro. Mas de um jeito inocente e otimista que me remete à Tom Zé, inventando um mundo novo após descobrir a matéria que o tornaria Deus de seu próprio universo. Falando assim, nem parece que o álbum de Subserviente é o que ele é. Frio. Solitário; Pressagioso; Desesperador. Cheio de saudade e ingenuidade. O oposto do que o samba foi feito pra parecer (???) Muito que talvez não. Quem olha fundo sabe. talvez algo que você pudesse dizer para qualquer obra forjada na frágua da nossa cultura. "O Brasil é feliz e triste ao mesmo tempo." Dentro do ânimo e da mais profunda energia, sempre vai existir uma tristeza singela. É o que (sem clubismo), dentro dos muitos nomes que demos, só existe aqui.

mas apesar disso, o que faz Ruim maior para mim não é o que usualmente, mais me emocionaria. mas sim sua atmosfera. "Mais ambient que os ambient", como eu costumava dizer. O disco tem uma aparência fantasmagórica expressa no seu som. Uma espécie de vazio que estranhamente ainda é sempre preenchido ao mesmo tempo. E se antes eu tentava fazer algum esforço para não soar tendenciosa, eu aqui me deixo levar pelo que mesmo que eu lute contra, sempre me vencerá. O que pra mim torna esse disco uma obra prima, habita um lugar mais profundo que o Brasil profundo, onde eu chamo de casa. O lugar que ele habita é o coração da artista. O que sem dúvida ou incerteza alguma, eu posso dizer que só existe ali. E em lugar nenhum a mais. A capacidade de transformar Ruim em uma cidade abarrotada de gente, inabitada ao seu sol poente. Um lugar vazio, despovoado pela noite. que deixa um espaço imenso para a expressão da mais solitária, desoladora e tristinha saudade.


para terminar aqui, eu, sem muito esforço (porque o pior que foi botar pra fora esse texto enorme mais adequado a review (ou nem tanto´) já foi feito) falarei um pouco sobre a minha impressão e o que eu mais gosto de cada faixa:

Casa: abrindo o disco com uma das melodias mais lindas que eu já´ ouvi na vida. bem vazia no começo, com muita paciência para colocar efeito até que entram as percussões inteiras e o ritmo toma forma pra um refrão que (sem exageros) já se tornou clássico. o que eu mais gosto no entanto, é um simbolismo silencioso onde o segundo ato da música soa bastante como uma entrada definitiva. fazendo com que a parte anterior soe como um 'bater-na-porta' e esperar alguém abrir.

Desdobrada: é onde o mais simples se destaca por ser o necessário. guitarras timidas se interpolando nos efeitos de echo. os momentos mais bonitos são quando notas específicas das guitarras se chocam com a voz e formam melodias inacreditáveis de tão lindas.

Meia-Noite: uma música com muita personalidade, entregue logo de cara nessa introdução cheia de movimento. com uma das melodias e letras mais sambas possíveis, se destrincha em outra melodia extremamente pop´ no refrão. "eu fico no mistério". essa é tão tristinha que dói. mas é bonita demais no fim. como os grandes sambas que fizeram por aí né haha´

Experiência Prévia: outra música só guitarrinhas. mas essa aqui é louca demais como tudo nela soa música brasileira. não sei nem explicar. eu particularmente amo a anacruse nela. e tem uma coisa lá pro fim do refrão que me lembra demais o undercurrent do Evans e do Hall. eu digo nem é só em atitude pensando no jazz não. mas é algo meio os voicings muito característicos do Bill Evans de tocar. isso é engraçado, porque é uma guitarra e não um piano, o que estamos discutindo aqui.

Eu Não: é uma desconstrução que pode soar muita coisa ao mesmo tempo, mas tudo que me vem a mente é uma mistura inacreditável de King Krule e algum samba-canção em toda sua maleabilidade que volta pra aquilo que eu disse. vai soando alegre e triste ao mesmo tempo. o que parece impossível, é algo que você consegue ver não sendo tanto aqui. essa pra mim é uma das músicas que mais expressam a ideia geral do álbum. ele soa vazio como a madrugada. tem muita coisa, e nada é tão óbvio ao ponto de você conseguir capturar sem prestar atenção.

Amor: eu falei brincando um milhão de vezes sobre o quanto essa música soa como um pesadelo estranho. e reouvindo depois de um tempo, eu continuo pensando a mesma coisa. O que eu falei sobre Eu Não (expressar a principal característica do álbum´), nessa música isso é elevado ao quadrado e muito disso eu acho que é por conta dos vocais. tão distantes e tão perto ao mesmo tempo. Você consegue entender, mas não consegue tanger, até o momento em que tudo se torna mais claro. Eu acho tão lindo como a letra dessa vai cada vez se tornando mais uma lembrança singela narrada com um aperto no peito sincero e doído. Pra mim tudo deveria ser só sobre isso aí haha´

Distante: essa aqui eu ficaria horas falando sobre, tendo tanta coisa pra falar que meu deus. mas eu vou só dizer algo desornado. essa música é a mais bonita e a mais importante do álbum, por causa de algo mais; de outra coisa junta´. que provavelmente ninguém nunca vai conseguir entender. mas eu diria pra ouvir e ouvir e tentar capturar alguma coisa. eu vou deixa uma aqui para quem quiser: era dessa música que eu estava falando, quando eu mencionei a inocência de Tom Zé. É ouvindo ela que eu fico pensando em como é bonito fazer algo significativo, mas que acima de tudo soe você, como você precisa soar. Essa é a música mais Subserviente´ já feita. antes mesmo de existir Subserviente (quem sabe sabe haha´).

Solidão: que letra linda meu deus. de tanto destaque nesse sentido, sendo difícil escolher uma. eu preciso dizer que escolheria essa a letra mais bonita e significativa do álbum (mas no meu coração, lá no fundo mesmo, é distante´). mais uma música que eu acho tão linda como ela soa vazia. aqui hiperfertilizada pela letra, soa vazia no sentido mais existencial possível. literalmente, solidão.

Onde Eu Não Consigo Voltar Pra Casa: essa é para os fãs de noise que se mal-acostumaram com os discos antigos de Subserviente´ falarem que a artista do noise ainda respira haha´. essa tem um artefato até cômico de tão inesperado que é. essa parede de noise que na primeira vez que você ouve, devido a quebra de expectativa, soa completamente assustadora. isso é lindo também né? a provável artista da década segue viva ai fazendo essas obras primas e vocês nada. mas me desculpem os fãs de noise. a coisas mais linda aqui é essa letra imensa e triste e desesperada e cheia de dor e culpa. como sempre né. ah, o samba. o brasil.