resentment log/
albumcover

como sempre: o argumento inicial partiu da vontade de produzir e finalizar material gravado ao longo do tempo. nesses primeiros meses do ano.

na semana de carnaval eu fui para uma cidade mais interior do interior onde eu moro [que é conhecida por um movimento cultural estagnado no tempo mas que atrai muita gente de todos os lugares do ´país.]. com internet limitada e trabalhando de dia, nos últimos dias do feriado a gente pôde sair nas noites e em uma delas voltando pra casa de madrugada eu comentei como essas cidades menores do interior sempre têm uma atmosfera meio esquisita, parecendo que foram amaldiçoadas. em casa só com meu laptop eu lembrei de textos que eu havia escrito, alguns 'poemas' sobre a pesquisa de cidades do interior no ano passado que eu pedi pra Ana gravar. A 'coisa' era meio asmr, ao mesmo tempo que tinha uma tristeza singela escondida. um lamento. Para as vozes eu apliquei um monte de efeitos pra tentar manipular um pouco as texturas e timbres e ficar mais sombrio. Mas o aspecto fantasmagórico continuou. Eu continuei pensando nisso enquanto ouvia os drones que havia feito há algum tempo, pensando em algum direcionamento. em um outro dia, voltando pra casa de novo eu gravei uns sons estáticos das ruas meio vazias com sons distantes das casas de show ou pessoas ou do vento forte e o mar agitado que guiariam boa parte da ideia desse disco. Pra deixar o som mais carregado, eu gravei mais drones usando sons-réplicas´ de sintetizadores famosos tipo o Minilogue. Usei samples e material gravado de um projeto antigo e atualmente morto que contribui, o Bondarie Affliction. A maioria sons de violino desafinado que eu mesma gravei ano passado, mas havia coisas estáticas, harsh noise e amostras granulares. Tudo isso foi passado e repassado milhões de vezes pelos meus samplers granulares no Reaktor e depois misturados com recortes das gravações de campo.

No começo, eu queria que esse disco fosse ultra minimalista. literalmente só a recitação das poesias intercaladas nos drones que fazem quase uma cama (véu´) para o resto. Mas eu percebi como em várias faixas existiam brechas mínusculas que me lembravam o death industrial. Foi onde basicamente entraram quase todo o resto de sons agudos ultrassaturados e mais dinâmicos. Mesmo assim, eu não quis me extender muito. praticamente não pensei em duração das faixas ou algo assim, apenas fui gravando e improvisando (e honestamente elas ficaram menores do que eu esperava), mas eu pensava em principalmente manter a ideia inicial que era de ser algo minimalista. apesar de ter muitas e muitas camadas na maioria das músicas, eu acho que o som ainda é na massa final uma coisa meio mínima e sem muito desenvolvimento.

esboço

um dos esboços que serviu de inspiração para pensar a cidade em conceito.

Isso é engraçado. Esse álbum é extremamente tranquilizante pra mim. as pessoas devem achar estranho isso né haha, mas eu acho que é porque ele é muito mais 'atmosférico' do que assustador em si se você ouvir pensando somente no som. Drones são uma coisa que sempre soaram massageadoras pra mim. mesmo que esse disco seja uma espécie de death industrial subversivo-inversivo, ele ainda é mais ambient do que tudo no fim das contas. As músicas mais longas, tem passagens instrumentais ainda mais longas que serviriam tranquilamente como faixas isoladas, mas que se fosse o caso, perderia completamente grande parte da substância do disco. No fim das contas, era outra coisa que eu queria muito. Um disco que me tomasse tempo para ouvir, apesar de que nem de longe ele é um disco longo, tendo só uma hora e dezoito minutos. Eu já fiz discos maiores e muito mais 'pretensiosos' aliás. Mas esse, sendo um disco onde as faixas têm tempo para se desenvolver, as partes mais 'importantes' estão sempre sendo entregues logo de cara. O final sobra um drone ou alguma parte instrumental que você pode ignorar conscientemente ou deixar apenas tomar conta da sua mente. Assim que eu finalizei todas as faixas do disco, era madrugada e não se ouvia quase nada lá fora. o que me permitiu ouvir esse disco bem baixinho e ainda assim absorver todos os detalhes. Mas nas últimas faixas eu dormi e só acordei no dia seguinte. De longe uma das melhores experiências da minha vida ouvindo álbuns e dormindo antes do fim deles.

cidade

conceito de 'interior' clássico´. o surgimento de uma cidade diante dos olhos

fragmento

O nome do disco e das faixas, expressam uma ideia que embora não pareça óbvia, é bastante. A ideia de que cidades do interior sempre serão privadas de oportunidades e desenvolvimento em detrimento das cidades grandes. O que traz consigo suas questões muito antigas como, desejo de migração, problemas socioeconômicos e algo mais específico mas ainda assim muito presente: o crescimento silencioso da amargura e do ressentimento em relação à vida. causado por milhares de motivos e razões, mas que sempre parecem enraizadas 'no lugar onde você nasceu', como uma espécie de maldição que mesmo você saindo daquele chão, ainda te acompanhará pelo resto da vida.

Requiem Movement foi feita pra ser uma espécie de abertura do disco, tentando de alguma forma amarrar e apresentar as ideias que seriam desenvolvidas mais pra frente. basicamente todos os samples e instrumentos usados no disco aparecem nela de forma sutil. Tudo foi feito passando os audios várias e várias vezes no meu sampler granular e depois encadeado com a quantidade certa de distorção e reverb. Eu tenho uma espécie de orgulho do que foi feito aqui, principalmente porque se ter um resultado controlado usando síntese granular é sempre um trabalho a ser feito, e aqui aconteceu de uma forma muito linear. o áudio se tornou completamente diferente da fonte, mas ainda soava claro e rítmico ao invés de uma massa confusa. o que foi perfeito.

Eterscape [I/ II/ III] foram compostas como uma peça só e separadas posteriormente. eu usei apenas os field recordings que eu tinha gravado em arraial e mais uma vez utilizei o granular como cadeia de sinal junto do reverb para criar os drones mais minimalistas e os 'efeitos' que aparecem vez ou outra. a parte rítmica é uma colagem feita dessas gravações quase como um musique concrète.

Veil of Ressentment é uma música que/ ficou totalmente diferente de quando começou. quando o projeto ainda não tinha uma direção muito clara, ela era a mais distoante de tudo por ser um piano que lembrava a trilha sonora de minecraft, afogado em reverb e em uma gravação de campo mais white noise. essa era uma música que provavelmente não entraria no disco, mas então eu reuni de novo uns samples do Bondarie Affliction e além de todo processo usual para carregar isso, eu processei usando um simulador de cassette. Se você fizer um esforcinho consciente ainda dá pra ouvir o piano ao fundo, tocando notas extremamente saturadas.

Rancour foi feita praticamente junta de Veil of Ressentment. então pra mim é como se fosse o lado-b dela. Não há nada muito especial nela para mim a não ser o destaque do som ultra envelhecido e ruidoso que aparece e depois some. Ele me lembra uma chuva torrencial e tem uma textura que ficou muito boa no fim das contas.

Desire é um grande destaque. É a mais death industrial de tudo em sua essência eu diria. Ela é muito atmosférica e honestamente todo esse timbre e textura aconteceu de modo muito acidental, o que é mais um motivo de orgulho pra mim. Algo perfeito nela é que ela consegue ser extremamente aguda por boa parte do tempo de um modo repetitivo, mas sem a agressividade exagerada típica do noise dando espaço para a cama de ambientação logo abaixo na hierarquia.

Ressentientia tem o nome mais bonito. O que inclusive é um neologismo de algum lugar da minha mente, junto de Eterscape. Eu gosto como em certo ponto ela é completamente vazia e apática. Acho que expressa bem o que essa palavra poderia ser.

Repetition Movement é a melhor música do disco sem sombra de dúvida. Ela é tudo que eu queria expressar em conceito e por isso ela é a última música. Longa e minimalista, mas até que 'em fim' com um desenvolvimento em catarse com a violência típica da música noise. A letra foi a primeira das outras que eu escrevi na época, antes da concepção do disco, antes mesmo de saber que eu usaria ela para esse trabalho. Inclusive, eu escrevi primeiramente essa composição na minha língua materna, "o português". Que sem clubismo, é muito melhor. e talvez, ou não, você se pergunte o porquê eu não ter a usado então ou o porquê não ter feito tudo na lingua materna mesmo. A verdade é que não existe uma razão muito clara; eu só a partir de doismilevinteequatro decidi começar a aprender esse idioma (inglês) de uma vez por todas do jeito certo pra não precisar ficar estudando intermitentemente. porque foi uma coisa que eu sempre negligenciei de certa forma. Então consequentemente, eu reescrevi ela inteira em inglês na época em que fazia muito isso, numa espécie de adaptação imaginando o que soaria melhor. No fim eu acho que expressa muito bem e me lembra Disco Elysium por alguma razão; uma das minhas referências eternas e inconscientes.

homes

A capa do disco veio 'meses antes da composição de tudo'. eu digo isso porque ela é de uma pintura a óleo que eu conheço há um certo tempo e sempre dizia para mim mesma que usaria ela em algum momento. é obra de Louis Daguerre. um pintor e fotógrafo francês. chamada: Ruins of Holyrood Chapel (1825).

o que eu 'tirei' (vi´) de um livro sobre arquitetura e composição gótica que eu não lembro o nome mais. mas que veio junto com uma inscrição creditando a obra. o que eu acabei por colocar no canto direito como forma de creditar também.

além dessa ideia para a capa. enquanto fazia eu ainda estive em dúvida entre outras duas opções, que estarão aqui apenas com o propósito de mencioná-las. mas que não foram mesmo utilizadas. nem serão.

chapel

por @mackiechartres 98 x 47 x 27 mm, 137 grams (without battery & film).

a primeira das segundas opções (risos), era essa fotografia analógica. apesar de muito bonita o que muita gente provavelmente até se lamente futuramente de não ter sido usada. eu acho que não era terrorífica o suficiente para reforçar a imagem do disco. embora eu adore ideias dissonantes ou nesse caso, que expandem até o conceito de uma obra. a minha paixão pela pintura de Daguerre falou mais alto.

chapel

por @ginocas Fuji Instax Mini / Lens: 27 mm.

outra fotografia analógica. essa indiscutivelmente perfeita. mais sombria, abstrata e enigmática. eu considerei bastante usar, mesmo. mas como eu havia dito. a paixão...


ainda durante o processo de produção aconteceu algo que provavelmente ninguém se importa, mas deixarei aqui mesmo assim: no fim da semana quando já estava tudo quase pronto praticamente, faltava só renderizar faixa por faixa e subir na internet. voltando pra casa, eu abro o projeto e ˗ˋˏboomˎˊ˗
ele não abre e fica carregando infinitamente...
para o meu não tão desespero eu estava tão cansada que eu só deitei e dormi e no dia seguinte eu estava torcendo para que o projeto abrisse magicamente e tudo aquilo não passasse de um delírio. haha. não abriu.

o que acontesse é que eu sempre usei uma maneira mais improvisacional (que foi usada aqui também/) quando se tratava de fazer música experimental. mas nessa eu decidi mudar um pouco as coisas e fazer mais como eu faço quando são músicas mais 'normais'. usando a daw do fl-studio. até ai tudo bem, eu acho. se eu não decidisse produzir e construir a estrutura do álbum inteira em um único projeto de mais de uma hora de duração usando uma grande quantidade de efeitos e faixas de áudio todas processadas em tempo real e quase zero latência em um computador não tão bom assim.

em algum momento quando eu fechei o projeto. muitas coisas entraram em pane e deram crash. corrompendo alguns arquivos e se tornando impossivel de carregar o projeto inteiro.

felizmente a image-line empresa do fruity loops tem uma ferramenta de recuperação de projetos que em alguns minutos de pesquisa eu descobri e consegui recuperar o projeto para um estado funcional. o que me permitiu terminar tudo e recortar as faixas finais para fazer o upload. o que honestamente, se não fosse possível, mesmo que eu quisesse muito eu acho que eu dificilmente me recuperaria de um luto de perder material de tamanha importância tão rápido (era só não ter sido uma burra e feito backups certinho ou organizado melhor o fluxo de trabalho mas blz). ainda mais quando muito do que foi feito, foi de maneira improvisada e eu acredito que seria muito difícil , se não impossivel reproduzir novamente. mas não foi, e aqui estamos.


Resentment está disponível no Bandcamp da Sub 3 Records e em todas as plataformas de música digital.